E quais as palavras que realmente são nossas?
Há muito tempo, tentei encontrar palavras que identificassem o que eu sinto, e que valessem de ensino pra mim por toda a vida. Mas, recentemente, eu vejo que isso nunca vai acontecer. A cada palavra, sinto que eu já não sou o mesmo. Cada palavra se transforma, ganha um novo sentido, que às vezes me faz sofrer. Às vezes me faz rir. Sorrir. Sorri. E transforma, como tudo o que eu vejo agora. Tudo mudou. E vai mudando, sem pedir licença, sem dar adeus, com inúmeras reticências.
Em espaços brancos, quis ver verdades absolutas, sonhos construídos, pessoas que me transmitissem paz, equilíbrio, esperança. Quis demais. E, vejam só, ao solitário caminho eu retornei, como antes previra. E como sempre vai ser, independente dos caminhos de pessoas com quem eu cruze. Minha alma é solitária. E agora, um pouco sozinha, perdida, confusa. Já não sei quem sou, o que quero, gosto ou vou fazer. Nem sei se um dia eu vou ser o que gostaria - seria muita pretensão poder ser? -, ou se algum dia algo realmente se firmará como certo.
Dentre tantas e tantas verdades ocultas que se mostram pra poucos olhos, eu sinto que ainda não encontrei o que procurava. Pouco eu realmente vi. Pouco eu realmente conheci. Dentro de mim, então, eu sou uma fria Antártida, não totalmente conhecida. O que achei que gostava, talvez não goste; o que talvez sentia, talvez não sinta; o que eu talvez soubesse, talvez não saiba. Perdido, mais uma vez. E sozinho, como todo bom ser humano.
Entristece-me saber que eu tô nessa selva doida onde não existe respeito entre as pessoas e impera o capitalismo hedonista e egoísta. Algo em mim ainda é muito sujo, sujeito à culpa e às mazelas que governam essa sociedade maldita que não vai pra lugar algum. Essa consciência de mundo, essa angústia de não poder fazer nada e não querer se submeter ao que todo mundo se submete apenas pra sobreviver me abala muito. Eu sinto um universo tão grande além desse horizonte, onde tudo o que eu sinto não é só meu. Eu não quero mais egoísmo, controle ou esse imperialismo que dita o que eu devo ou não fazer, o que eu devo ou não ser... A todas essas crenças inconscientes eu quero um "não" bem grande, porque em mim só eu posso sentir o que elas realmente são. Não adianta eu querer me enganar sendo como a maioria das pessoas é.
Nunca me senti tão perdido. Diante de tudo, não me resta nada. Eu não me identifico com nada, e ao mesmo tempo eu já não tenho mais certeza de nada. Já não sei se gosto mais de estudar; já não sei se posso trabalhar diante de tudo o que eu conheço; já não sei mais quem eu sou. Só caminho sozinho, sabendo que todas essas leis que regem o universo já não são mais minhas.
Talvez nada seja meu. Eu já não tenho mais controle sobre nada. Nem a mim eu realmente conheço. Tenho necessidades que não são minhas, gosto de coisas que não sei se gosto mais, sinto o que não quero sentir. E ao que há de mais belo, mais bonito e mais profundo eu almejo, pra poder salvar esse equilíbrio que um dia, talvez, possa me deixar bem. Eu já não ligo mais pra dinheiro, nem quero saber de sonhos prontos. É uma crença ocidental que cobra demais de mim. Eu só quero ficar bem com o meu eu, independente de opinião besta que eu sempre ouço por aí. E irradiar esse bem-estar pra quem realmente precisa, talvez, seja o sonho mais concreto que eu queira realizar. Pelo menos agora. Amanhã, espero que já sejam outras as palavras - melhores, quem sabe. Já não me importo de ficar sem teto, de passar fome. Só não quero mais sofrer. E mesmo que eu ainda tenha outras vontades meio loucas e comuns, mesmo que eu ainda queira me encaixar em alguma coisa, encontrar pessoas bacanas que me acompanhem nessa jornada pra manter essa esperança toda, eu sinto que há algo maior em tudo isso. E é esse algo que tá pedindo pra sair. Me dar um abraço. Dizer que eu vou ficar bem.
Talvez as coisas nunca mais sejam as mesmas. Talvez meu coração ainda carregue algumas mágoas. Mas ainda há sorrisos, lembranças que me fazem bem. Eu não quero mais seguir nada, nem perpetuar esses mesmos apegos. Eu quero ouvir o que tá escondido, sentir o que é bacana. Trazer de novo a esperança pra, quem sabe, descobrir quem eu realmente sou. Ainda que com outras palavras.
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