Só mais uma dose, por favor


Na sacada do prédio, observava triste o andar dos carros. Na fina chuva que escorria lá fora - e aqui dentro em meus olhos. Por que assim me sentia?

No alto dos meus 30 anos, apenas uma coisa me importava: vê-la novamente, apenas mais uma vez. Seus olhos castanhos, largos e profundos com aquele olhar de quem olha a Deus, eram tudo o que eu queria ver.

Seu sorriso largo que me fazia sorrir.

Seu jeito tímido e interiorano de ser refletiam em mim uma sensação boa - que talvez nunca mais pudesse ter.

Seu corpo formoso, seus cabelos lisos e macios, sua pele. Eram como o céu em um dia sem nuvens.

Mas o sonho, aos poucos, se dissipava, como fumaça em minhas mãos. Distante, além do horizonte, como se nunca tivesse existido.

Eu só queria tê-la por perto. Eu só queria que ela fosse real.

Falar de números ou coisas que eu não entendo.

Falar de projetos ou efemeridades. 

Falar. Ouvir. Sentir. 

Impossível não apreciar a sua inteligência, que voa fácil como um colibri. Impossível não querer ser ela apenas por um momento. Impossível.

Mas ela escorre pelas mãos. Nunca será parte de mim. Nunca fará parte de minha vida. Pois ela é perfeita demais para existir. Nada além das minhas meras projeções.

Naquele copo de vinho eu me afogo e me entristeço. Apenas duas pedras de gelo me sobraram. Poético.

Na garrafa, ela refletia a mim como um espelho quebrado. A ela me reportei, externando todas as minhas dores e angústias.

Patético.

Louco.

Infeliz.

Assim, me libertei dessas amarras que me matavam. Mas não matei as amarras que ela deixou em mim. 

Um dia, o vinho acaba. Um dia, a realidade vem. Um dia, a gente acorda. Um dia tudo se esvai. O sono bate à porta. A magia não parece mais tão vívida. O mundo gira, a cada instante, até chegar ao seu fim. E triste, mais uma vez, ele se acaba. Ele se vai. Ele, só ele. Ele... Ele... Ele...

- Senhor?

- Que horas são?

- O galo está quase cantando. 

- Há tempo para mais uma dose?

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