Náufrago


        Passam as horas, os dias, os meses, os anos e a vida se extingue em pouco tempo. Parou, pensou, existiu. Morreu. Viveu num instante confuso, tendo a solidão como única companheira. Viu barquinhos, o sol nascer, a vida acabar. Viu olhos estranhos que o viam. Sentiu presenças que não estavam presentes. Mas parou, ali, naquele mesmo mar sem que a vida lhe desse uma chance. Palavras mortas, sem sentido, como a sua própria vida...
       Gostaria de mudar o mundo, de fazer da vida algo bonito que valesse a pena. Gostaria de fazer do mundo um mundo só seu, que lhe trouxesse acima de tudo a felicidade que tanto queria ter. Gostaria de ser bonito, falante, inteligente, de ter muita coisa que não tinha; gostaria de não ter nada, de não ser nada, de não se encaixar em nada. Queria barquinhos, aviões, bicicletas; queria paz, alegria e lágrimas de bom-humor. Não fazia sentido continuar com tudo aquilo, não tendo esperança alguma de mudança alguma.
       Gostaria de gritar mais alto do que sua própria garganta poderia suportar. Gostaria de poder parar todos esses sentimentos tristes que lhe tomavam conta todos os dias. Gostaria de ser muita coisa que nunca poderia ser, ou não ser nada que gostariam que fosse. Gostaria de não ter que viver neste mundo chato, seguindo as mesmas regras idiotas que ele mesmo não entendia o porquê. Gostaria de ter mais respostas e menos perguntas...
       Mas era triste e não sabia o que fazer. Se nem ao menos escrever ele podia, sabendo que isto era algo que adorava, o que mais poderia fazer? Em que mares poderia navegar se só existiam terras e mais terras secas por todos os lados que olhava? O que poderia fazer se seus sonhos se destruíam com o vento quando encarava a realidade que tomava conta de seus dias? Nada. Esperança despedaçada na desesperança de seus tolos ideais. 
       Palavras que tanto gostaria de saber dominar e agora lhe pregavam peças. Barcos escuros que o sol não podia iluminar, navegando sem rumo para um lugar triste e mais sombrio ainda... Vagava em seus pensamentos para um lugar distante, sem esperança, crente de que todas as coisas boas que lhe acontecessem não seriam suficientes para preencher o vazio de seu coração. E assim seguia, torcendo para que a vida lhe pregasse uma peça. Mas a vida era boba e só conhecia os pássaros. Os barquinhos naufragavam no abismo logo a frente, junto com o pobre rapaz.







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