Jorge




      Olhos arregalados. Pernas trêmulas, mãos suando. Não sabia ao certo o que leria naquela carta, mas só de imaginar o que estaria por trás daquele envelope azul já ficava assustado. Parou, ergueu as mãos com a carta em direção à luz que invadia sua antiga casa, agora em ruínas. Partiu o papel em dois, virando-se rumo à porta. Saiu, deixando as palavras sob aqueles escombros.
     "Nunca conseguirá mudar a você mesmo, Jorge... Desista!", pensava consigo mesmo. Já estava há 30 anos lutando sempre contra aquilo que mais lhe incomodava: ele mesmo. Não sabia o que fazer e nem a quem recorrer. Só sabia que não queria mais que aquilo tudo continuasse martelando constantemente em seus ouvidos. Parou. Andou mais um pouco, tentando fugir de si mesmo. Deitou na grama e olhou para o céu. Pedia a Deus que o ajudasse, não importava como. Queria que toda aquela dor que sentia não fizesse mais parte de seu cotidiano, já que o sofrimento parecia conduzi-lo para um lugar que não gostaria de frequentar - ao menos naquele momento.
      Jorge sabia que era fraco. Sempre brigava com seus amigos, já que todos eles não tinham a sua mesma opinião. Jorge era louco quando queria ser normal. Jorge era artista, filósofo, músico, professor, cientista e arquiteto, tudo em seus sonhos. Mas Jorge não gostava do mundo porque este não o deixava bem. Aquele mesmo tradicionalismo que movimentava os dias traziam-lhe nojo, ao passo que a vontade de sumir de vez aumentava com o passar dos dias. Jorge era triste, só ele sabia o quanto. Mas Jorge era Jorge, não havia como fugir disso...
      Jorge queria mudar o mundo. Jorge não queria ver pessoas tão fúteis ou robozinhos no meio do sistema. Jorge só queria que tudo ficasse bem, independente do nome que isto pudesse ter. Jorge queria simplesmente sentir-se bem. Mas Jorge era Jorge e Jorge não era feliz - pobre infeliz. Se os anjos soubessem o quanto Jorge sofria... Ah, coitado de Jorge... Jorge sofria por ser Jorge, mas não podia ser outra pessoa. Ah, Jorge...
      Jorge só queria ficar bem, mas era difícil para ele em um mundo tão complicado com coisas tão complicadas, sobretudo porque ele, Jorge, também era Jorge. Mas Jorge, apesar disso, lutava para não ser Jorge, porque ser Jorge era muito difícil. Até porque ninguém aceitava a forma como ele era, nem o modo como escrevia. Mas Jorge, mesmo em terceira pessoa, lutava para não ser Jorge, querendo apenas um eu em meio a tanto formalismo sem-sentido. Lutando, entretanto, Jorge conseguia tornar-se uma primeira pessoa. E ali, naquela casa em ruínas, desmoronava. Não via mais flores, árvores, bancos ou tijolos; Via menos sofrimento, menos incompreensão e mais palavras bonitas. Jorge era Jorge, não podia negar. Mas Jorge era eu também, o que podia fazer? Jorge parava, pensava e tomava outro parágrafo para si, fingindo que nada havia acontecido. Riscava o papel rasgado, voltando à história...
     Da grama, o pobre Jorge voltara para a casa em ruínas. Lá, rabiscara um pequeno pedaço de papel com palavras sem-sentido. Sofria. Ah, Jorge... Olhava as paredes, os bancos, o telhado e tentava visualizar algo que lhe fizesse bem, porém nada mostrava a ele algum sentido. Continuava a sofrer. Repetia, repetia, repetia, mas seus olhares buscavam o inalcançável. Jorge era fraco. Mas Jorge era Jorge e só ele sabia disso. Parou, respirou, olhou para a luz que invadia o ambiente e pediu a Deus, mais uma vez, que lhe tomasse o sofrimento. Olhou para aqueles pedaços de papel no chão e juntou, como se a mensagem triste que lera lhe pudesse trazer algo bom. "Jorge era eu", mostravam as palavras ali desenhadas. Mais embaixo, no entanto, acerca daquelas mesmas palavras, outra mensagem bem pequenina lhe invadia o coração. Lia para si mesmo, baixinho, como se o mundo lhe pudesse roubar a qualquer instante aquele grande prazer momentâneo. Jorge não era mais Jorge. Jorge era aquele singelo poço de esperança que tanto queria ser. Era o indizível do indecifrável. Jorge era eu, simplesmente... Mas Jorge está morto.
     

Comentários