Sol do meio-dia
Já não havia mais tanta inspiração quando resolvera escrever. Talvez o desgaste emocional que sofrera ao tentar entrar em seu blog quando a internet estava ruim houvesse bloqueado aquela sensação que queria escapar a qualquer custo. Queria encontrar em palavras um pouco do seu eu, resgatando um pedaço seu que talvez tivesse deixado lá atrás. Pensou em seu dia e sentiu saudades. Saudades dos pequenos gestos e das coisas que passavam enquanto vivia.
Parou. Aquelas lembranças não lhe faziam escrever o que gostaria. Teimava, mas não via a inspiração nascer. Parou, por mais um instante e pensou em coisas que talvez pudessem lhe tirar algo. Pensou nos amigos, nos momentos em que sorria, no seu amor, na sua vida. Mas tudo o que conseguiu obter foi saudade.
Escreveu uma linha. Apagou a linha. Escreveu outra linha. Apagou a outra linha. Refez exercícios de algoritmos. Mas não fez nada além de impor ordem a si mesmo, e de ordem ele já estava cansado. Queria resgatar ao menos um pingo de vontade para realizar alguma coisa. E, naquele momento, a única coisa que queria era escrever. Não sabia sobre o quê, mas não queria deixar que essa vontade escapasse.
Escrevia palavras aleatórias, com medo de que a vontade de escrever sumisse de sua alma. Tentava fixar todos os seus pensamentos, todas as suas lembranças em uma única palavra, mas ela, em um minuto ou outro, sempre escapava das mãos. Tentou vê-la num sorriso tênue que lhe preencheu o dia. Tentou ver os livros que ocupavam a sua escrivaninha. Leu dois ou três capítulos de um deles e nada. A inspiração não vinha.
Pensou na biblioteca. Sim, a biblioteca! Talvez sua resposta estivesse lá. Não havia encontrado o sorriso lá pela manhã? Por que não encontraria também inspiração para escrever?
Foi à biblioteca. Em meio a tantos e tantos livros, não decidia por onde começar. Pensou em números. Algoritmos. Mas estava cheio de algoritmos, talvez algo mais tranquilo lhe fizesse mais sentido. Revirou a prateleira de cálculo e ficou confuso. Tantos números!
Partiu, então, para os livros infantis. Não aguentou aquela explosão de rosas, fantasmas, bruxas e castelos. Nem a Branca de Neve conseguiu mantê-lo lá.
Revirou os livros de autoajuda, mancou nas revistas (ignore as de mulheres bonitas na capa, para não constrangê-lo), releu os livros estrangeiros e os de negócios. Nada.
Nada. É isso! Talvez não precisasse de um tema específico de leitura, por que não pensou nisso antes? Talvez devesse escolher alguma coisa aleatoriamente. Revirou os olhos, mais uma vez, a procura de algum livro. Abaixou para pegar aquela capa amarela com letras grandes e o desenho de um sapato. Um sapato preto, de velhinho, marcado pelas sinuosas curvas características. Quando levantou, não viu palavras. Viu o sorriso que o encontrara pela manhã. E aquele sorriso se aproximava em passos lentos de onde estava.
Deixou o livro cair e, ao abaixar para pegá-lo, lá estava aquele sorriso lhe estendendo a mão. Fitou a dona do sorriso e pegou em suas mãos, torcendo para que aquele momento não lhe escapasse da memória. Abraçou-a gentilmente e pediu um conselho. Mostrou-lhe as anotações do bloco de folhas que havia rabiscado e lhe perguntou se ela podia ajudá-lo a escrever.
Surpreendida pelos rabiscos, demorou a falar alguma coisa. Leu, concentrada, por alguns minutos, todas aquelas infinidades de palavras e rasuras mal apagadas. Esboçou mais um leve sorriso, dizendo "Você não precisa escrever nada. Está perfeito!".
Descrente no que havia acabado de ouvir, olhou para a dona do sorriso, sem dizer nada. Esperou que ela falasse mais alguma coisa.
"Acho que você se cobra demais, meu amigo. O que está aqui me diz muita coisa. Está lindamente lindo! Não há o que buscar ou escrever. Você já escreveu!"
Não havia percebido o quanto havia escrito. O bloco ganhara vida, e o sentido que tanto procurara nunca havia saído de lá. Quis sorrir, mas sentiu medo de roubar o sorriso encontrado pela manhã. Sentiu medo de fugir o olhar, o sorriso e a dona. Sentiu medo de perder-se mais uma vez em seus medos.
Mas o medo não cresceu sobre ele. Ofuscou o temor e, logo depois, sorriu. Sorriu mais largo, um sorriso bonito, daqueles de TV. E, então, seu sorriso tomou conta de sua alma, preenchendo-o de sensações boas. Seu sorriso encontrou um outro sorriso, que sorriam juntos. E esses sorrisos completos formavam um só, junto com as palavras que também sorriam.

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