Um sonho profundo


Acendeu a luz. Olhou ao redor, assustado, como se houvesse despertado de uma terrível mentira. Assassinos, bandidos, corruptos, hipócritas. O que fazia ali, parte de toda aquela cena? Quis respirar, mas sufocado se prendeu. Debateu-se. Estava entre livros abertos, palavras mal-ditas, frases mal-escritas, rótulos sem-sentido que não lhe diziam absolutamente nada. Desciam aos montes alpinistas da gramática, rindo, olhando para ele - rindo dele. Sentia medo. Onde estava a sua liberdade? Onde o mundo a havia colocado? Procurou atrás dos alpinistas. Mas só viu assassinos, bandidos, corruptos e hipócritas.

Fechou novamente os olhos e apagou a luz. Não conseguia dormir, tudo o perturbava. A falsa ideia de liberdade em sua própria casa o amedrontava. Não estava seguro. Sufocava-se. Por que cargas d'água faziam isso com ele? Por que não estava no mundo alegre e desejado que tanto sonhara desde criança? Onde estava?

Abriu em um instante aqueles olhinhos castanhos regados por uma pequena cachoeira. Pensava e desejava a todo custo não pensar. Queria encontrar um novo mundo, onde viveria só. Só com a Felicidade, só com a Bondade, só com a Paz, só com o Amor. Mas não encontrava o lugar ideal. Casas desestruturadas, mais e mais pessoas, falsas ideias de proteção e felicidade conjunta, falsas ideias hipócritas de convivência social e falsas vidas lhe apareciam em cascata, e ele equilibrava-se em um pequeno fio que encontrara em seu interior. Chorava por ver aquele pequeno fio se descascar, e todas as suas seguranças ficarem inseguras. Contava com poucos amigos, mas estes eram pessoas como ele, e não podiam ajudar. Fechou novamente os olhos, criando, agora, uma escala de Dó Maior na cabeça.

Confundia-se. Roubavam-lhe a música, os sonhos, a harmonia entre as pessoas, o sol em dias frios com chocolate quente. Tiravam-lhe a liberdade, a felicidade, a paz, o amor. Procurava uma saída para ficar bem novamente. Decidiu escrever. Escreveu, escreveu, cantou, fez música e uma pequena melodia veio a surgir. Imaginou flores, pássaros, sol em um dia frio com chocolate quente, uma varanda e coisas felizes. Enfim, respirou. Tentou manter a sensação por mais tempo, mas ela rapidamente se foi.  Uma voz ao fundo invadia sua mente. Cantava ao ouvido, tentando resgatar aquele sentimento perdido.

-João? João?


Parava a voz. E logo ressurgia, como uma fênix, chamando a atenção.


-João?
-Ana?
-Sim, João, sou eu. Você está aí nesse quarto há tampo tempo... Vim aqui te convidar para dar uma volta.
-Ah, Ana, bem que eu estou precisando tomar um ar... Mas, sabe, estou com um pequeno aperto no coração.
-Aperto?
-Sim, não sei explicar muito bem... Gostaria que as coisas estivessem melhor. Não estou conseguindo respirar profundamente por conta própria.
-Calma, João. As coisas vão ficar melhores.
-Sim, Ana, é o que eu tenho tentado acreditar. Mas está muito complicado.
-Não desista de continuar acreditando. Você sentirá muitas coisas boas, pode ter certeza. Mas agora o que você pode fazer é se permitir ser feliz, meu amigo.
-É tão difícil...
-Vem respirar comigo um pouquinho lá fora... Vai se sentir melhor. Não tenha medo, eu estou com você.
-Obrigado, Ana, mas queria tentar fazer isso um pouco sozinho.
-Sei que não vai tentar agora, João. Conheço você. Vem respirar um pouquinho, prometo não conversar sobre a minha vida contigo nem sobre a da Dora.
-Não sei...
-Vem, João. Vai ser bom. Eu estarei com você, não tenha medo. Não tenha medo das coisas. Elas não machucarão você, você é mais forte do que você pensa.
-Talvez machuquem, Ana. Estamos tão cobertos por coisas doidas.
-Concordo, João. Mas não faça das coisas obstáculos para preencher seus medos. Eles vão continuar aí se não criar motivos para tirá-los. Viva, João, permita-se se sentir feliz, ao menos enquanto estiver aqui.
-Ana...
-Pega a minha mão, João. Respira, respira fundo. Sente que o teu mundo é bom, que teu céu é mais colorido, que tuas roupas são mais confortáveis, que tua casa te faz bem, que sentes sentimentos bons, que tudo o que te cerca é legal. Sente que, mesmo com todos os problemas que ocorram ao teu lado, vives coisas boas, que sonhas e tens esperanças. Sente que você sente e que se mantém vivo enquanto respira. Respira mais um pouquinho, toma o ar que vem de longe... Acalma teu coração. Eu tô aqui.

Em um pequeno momento não marcado pelo relógio, sentiu um leve sopro atingir seu coração. Tentou captá-lo, fazendo-o passar pela faringe e atingir os pulmões, mas a expiração compacta tentava distraí-lo  lembrando-o de seus pensamentos tristes. Respirou novamente e, dessa vez, o sopro se manteve, eliminando uma grande parte do mal-estar que invadia sua alma.

- Vem comigo, João?

Por um instante, sentiu o mundo parar um pouco. Tirou um pequeno peso dos ombros. Seu coração aliviava-se, ao menos naquele momento. Sentia o ar mais vivo, as cores mais intensas, o mundo menos triste. Sabia, no entanto, que tudo aquilo não duraria por muito tempo, pois o mundo não era lá aquele Conto de Fadas que a maioria das pessoas gostaria de viver. Sabia que enfrentaria Dragões para salvar a Princesa, que a Bruxa Má o amaldiçoaria, que o Vale Encantado se tornaria cinza de vez em quando. Mas como o Príncipe de sua história, sabia que teria um caminho feliz, independente dos trilhos pelos quais a narrativa o conduzissem. Sabia que de vez em quando poderia sentir um pouco mais de liberdade e respirar melhor. R-e-s-p-i-r-a-r era o que aliviava seu coração, pois sabia que ainda havia esperança no longo caminho de sua vida.


-João? João?
-Ana?
-João, acorda! Está dormindo aí há um bom tempo!
-Que horas são?
-São quatro horas. 
-Quatro horas?
-Da tarde.
-Nossa, não vi o tempo passar.
-É claro, né, João? Estava dormindo...
-Parecia-me tão real...
-O quê?
-Tudo.
-Ai, João, deixa de ser bobo! O que houve?
-Eu respirei, Ana. Tive uma sensação boa. Parecia felicidade.
-João, acho que você precisa acordar de verdade. Não parece que acordou. Não fala nada com nada.
-Quer dar uma volta, Ana?
-O quê?
-Quer dar uma volta?
-Mas você não queria ficar em casa?
-Sim. Mas agora eu quero dar uma volta. Quero respirar mais um pouco. Mais uma vez.

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