Como estrelas amarelas...
Em um daqueles dias confusos seus, decidiu passar a limpo todas as palavras que existiam em sua mente. Tentou uma, duas, três vezes, mas não conseguiu decidir a melhor forma de começar o parágrafo. Sua mente parecia não querer ser traduzida, enquanto a parte obscura da sua psique desejava chamar a atenção por meio de encaixados de letras com sentido próprio. Olhou, então, para as estrelas amarelas. Pediu para que pudesse, acima de tudo, encontrar uma saída para seu sentimento impróprio. Mas as estrelas não respondiam da forma como ele gostaria, o que abalava ainda mais o modo como ele encarava as coisas...
Pegou outro pedaço de papel, traçado com linhas vermelho-sangue. Segurou a caneta azul já no fim e rabiscou a primeira linha com algumas pequenas notas musicais. Riscou o fá e traçou o sol, que ofuscou o brilho das estrelas amarelas. Riscou o sol e não traçou nada, devolvendo a luz para as ouvintes que não o entendiam muito bem. Pulou algumas linhas, escrevendo mais duas ou três notas. Ao final da folha, rabiscou cinco ou seis pedidos de socorro. A morsa fez do céu estrelado com diamantes a Liverpool incendiada de revoluções ofuscantes e mãos seguras em ajuda ao ininteligível de suas palavras. Mas, como a morsa não existia, tudo isso sumiu. Sumiu, junto com a sua alma.
Sabia que não mudaria assim tão fácil. Sabia que não poderia ser o que não fora durante todos aqueles anos em que existiu. Sabia que não poderia ter o que nunca tivera. Sabia que deveria passar por cima daquilo que temia para ter ao menos um pingo de felicidade. Sabia tantas coisas e, ao mesmo tempo, não sabia nada. Não sabia, por exemplo, como começar a revolução. Não sabia como mudar a si mesmo sem mudar o que de mais bonito havia no fundo do seu coração. Não sabia não temer o futuro, nem tampouco criar o próprio futuro... Eram tantas e tantas coisas que ele se perdia dentro de si mesmo.
Olhou, mais uma vez, para as estrelas amarelas. Sentiu esperança de que algo poderia, enfim, mudar. Sentiu que nada daquilo era por acaso e que as coisas poderiam dar certo. Sentiu que não sentia nada porque não existia, assim como a morsa. Sentiu as estrelas se fechando, numa escuridão crescente e profunda. Sentiu um abismo se formando, ao passo que os olhos castanhos tendiam a esconder a verdade em suas delicadas pálpebras. Sentiu e, novamente, voltou a não sentir nada. Não sentiu nada.
As estrelas amarelas voltavam a olhar para ele. Não sabiam o que dizer. Ficavam em silêncio, torcendo para que ele ficasse bem no meio de suas palavras confusas. Derramavam lágrimas azuis no papel, lágrimas estas que se misturavam com o traçado vermelho-sangue característico da folha. E, ali, desenhava-se uma mistura confusa, tal como se encontrava o próprio escritor.
Não havia nada que pudesse fazer. Não havia palavras. Não havia morsas. Não havia sóis. Não havia saídas. Não havia nada além do nada. As estrelas amarelas embaçavam-se em meio a tanto sofrimento, chorando lágrimas cada vez menos azuis. As estrelas tornavam-se alvas e o escritor desaparecia. Era intrínseca a relação mantida entre os dois; não era possível um sem o outro. E as estrelas, na dor de seu triste companheiro, não podiam mais suportar. Sumiam na sua agora brancura, tornando um pouco mais claro o ambiente. Sumiam, levando consigo o pobre escritor. Sumiam, junto com a morsa, os sóis, as palavras. Sumiam, com o intenso vermelho-sangue daquele chão.
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