"Bom dia..."


         É estranho quando a gente passa na rua e não vê ninguém. Ninguém que eu digo é aquele estágio onde não existem pessoas, sejam estas conhecidas ou não. Acho que já me acostumei a ver rostos e corpos humanos todos os dias. Quando não os vejo, logo estranho. Agora mesmo, às 5h da manhã, esperava encontrar alguém. Nem que fosse um homem deitado embaixo do toldo ali na esquina, ou um comerciante abrindo as portas, ou ainda um simples rapaz indo trabalhar. Mas não, não há ninguém...
        Não costumo dar "bom dia" para desconhecidos. Minha rotina e meus hábitos fizeram-me ter esse costume. Mas hoje eu até que me empolgaria em dizer esta expressão. Não que eu tenha acordado em um bom dia, mas porque eu mesmo gostaria de receber um sorriso ou um "bom dia" de volta de alguém. Alguém... Podemos dizer que o alguém é aquele que está um nível acima do ninguém e um nível abaixo do aquele ali. Porém, este alguém pode se tornar um aquele ali caso as necessidades da vida o coloquem nesse estágio. E, talvez, esse aí possa virar até mesmo um conhecido. Conforme as conveniências do jogo que rege a existência humana, um conhecido, por sua vez, pode evoluir para colega, amigo, camarada, brother, irmão...
        Acho estranho quando paro para escrever sobre coisas do meu dia. Também não me acostumei com textos desse tipo - isto é uma crônica? -, embora goste bastante de lê-los quando tenho um tempinho livre pela manhã.
        Olha, finalmente uma pessoa... Mas ela está tão apressada. Acho que o seu ambiente de trabalho não é muito legal. Ela... Ops, ele, melhor dizendo... Ele possui uma cara absurdamente entediada, como se desejasse alguma coisa que mudasse sua vida - eu diria um alguém -, embora esteja conformado com sua rotina estressante. Sinto uma imensa vontade de interrompê-lo com um singelo "bom dia", mas tenho medo de cruzar o seu caminho. Ele corre apressado e me amedronta com os seus gestos.  Até a sua pequena maleta parece acompanhá-lo nesse ritmo frenético. Seus passos seguem rumo ao ponto de ônibus ali em frente, ponto para o qual também me dirijo.
       Minutos que passam e passam. Para todos, não só para mim. Mas eles são tão torturantes! O tic-tac me faz lembrar que o tempo é uma bomba prestes a acabar com bons momentos. Finalmente, finalmente havia uma pessoa ali para desejar "bom dia" e ela sequer notava a minha presença... Eu, na minha insegurança, não conseguia dirigir-lhe a palavra, embora desejasse muito falar-lhe a maldita expressão entalada na garganta.
       Mais um minuto passado desde então. Já não aguentava de tanta impaciência. O sol começava a mostrar seus primeiros raios de luz. O dia finalmente resplandecia, mostrando que uma nova manhã, enfim, começava a surgir. O céu rosado com nuvens alaranjadas dava um ar ainda mais grandioso ao espetáculo lá em cima. E o tic-tac do relógio continuava a me afligir.
        Comecei a pensar se eu era realmente normal. Acho que garotas da minha idade não se comportariam da mesma forma que eu. Poxa, é só um simples "bom dia". Que mal há nisso? Por que não falar logo?
      Um ônibus lá no fundo vinha dar o ar da graça. O motorista parecia aproximar-se rapidamente, embora lá no fundo eu desejasse que ele adiasse a vinda para poder falar o bendito "bom dia" para o tal do rapaz. Mão levantada. Sinal para parar. Aquele era o ônibus que ele pegaria. Olhava aflita desejando que ele virasse ou eu tivesse coragem de dirigir-lhe a palavra. Mas nenhuma das situações ali ocorria. Finalmente ele entrou no ônibus. Sentou lá atrás, com a maletinha no colo e o rosto na janela.
       Juro que senti vontade de entrar naquele ônibus, sentar ao seu lado e dizer o tal do "bom dia". Talvez porque soubesse que não o veria nunca mais e que, lá no fundo, eu não pudesse transformá-lo de um simples alguém para um mero conhecido - ou, quem sabe, um colega, amigo, camarada, brother, irmão...
       O ônibus começava a partir. Torcia para que da janela ele pudesse me ver, nem que por um segundo, para que eu pudesse desejar-lhe, do fundo do coração, um singelo bom dia apenas com o olhar. Mas ele hesitava olhar para aquele ponto. Meu coração gelava enquanto minha mente me chamava de idiota. O sol, que clareava ainda mais o ambiente, parecia rir do meu profundo babaquismo naquele instante. No entanto, mesmo assim, eu insistia em olhar para aquele veículo. Por alguns instantes, o vi olhar para mim e esboçar um leve sorriso. Retribui com um outro ainda mais expressivo, embora o gesto estivesse um tanto quanto tímido.
        Finalmente o ônibus se foi. Continuei no ponto, esperando a minha condução. Naquele instante, no entanto, eu sabia que, independente do que acontecesse, eu teria um bom dia. Mesmo sabendo que não veria mais o tal rapaz, tinha certeza de que ele também teria um excelente dia. Pois, aquele ônibus, embora levasse indivíduos para locais diferentes e colocasse num mesmo espaço vidas extremamente opostas, carregava um tímido "bom dia" de um sorriso, que enternece sol, céu e tempo e torna, ainda que apenas por um curto período de tempo, a vida de pessoas um pouco melhor...


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