Sob o mar da traição
Ainda me recordo desse dia. Estava sentado a alguns metros dela, observando seus pequenos gestos. Ela furtava alguns de meus olhares e retribuía-me com outros, bem mais fascinantes. Sabia mexer comigo. Talvez não percebesse isso.
Éramos de salas diferentes. Tínhamos nossos próprios grupos de amigos, com os quais interagíamos. Ela era bastante inteligente e tirava notas altas; eu só buscava passar de ano. Apesar disso, mantínhamos boas relações, mesmo não conversando tanto.
Em sala, ela assustava os professores com suas respostas desafiadoras, sua postura intelectual e seu jeito especial de lidar com as coisas. Tinha um senso crítico apurado, mas tal qualidade não a tornava arrogante; pelo contrário, enaltecia-a ainda mais. Não precisava disso, para falar a verdade, já que era muito bonita.
Quanto a mim, sempre fui meio desajeitado. Não sei se bonito. Talvez não. Inteligente? Não, isso não. Apenas "enrolava" nos estudos. Propunha debates na classe, contudo não participava de nenhum deles efetivamente. Sempre fugia de tudo. Até de mim mesmo.
Em um certo dia, quando ia para a minha classe, esbarrei-me nela. Encontro típico de filme norte-americano. Até ri na hora, já que, naquele momento, sabia que estava gostando dela. Recolhi as coisas que caíram no chão durante o esbarrão e entreguei-lhe. Esboçou um leve sorriso. Notei que a partir dali poderia surgir alguma coisa entre a gente.
Com o passar das semanas, percebi que não conseguia ficar longe dela. Tentei uma aproximação durante os intervalos das aulas. Bem-sucedida, por sinal. Era questão de tempo até ficarmos juntos.
E ficamos... juntos. Eu apaixonava-me a cada dia por aquela garota. Encantava-me com seu sorriso, seu olhar... Ela ainda me parecia um pouco distante, mas não liguei para isso. A única coisa que eu queria era ficar perto dela. Somente dela.
Algum tempo depois, soube que um certo garoto havia entrado em sua sala. Menino de um outro colégio, que havia se mudado para a nossa cidade. Nada de mais, até então. No decorrer dos dias, no entanto, notei que eles haviam se aproximado. Recusei a aceitar que algo além de amizade ali se firmava. Afinal, eu gostava dela, e ela de mim...
Entretanto, comecei a perceber uma proximidade um pouco maior entre eles. Os dois passavam boa parte do dia juntos, abraçavam-se e riam, demonstrando grande afinidade. Expus o que eu sentia para ela. Disse-me que não precisava preocupar-me, pois me amava e só comigo queria ficar.
Mais e mais desconfianças passaram a tomar conta de mim. Entristecia-me facilmente. Uma enorme dor invadia-me e, mesmo tentando acreditar em mim, eu só podia ver mentira e falsidade neste jogo. O vídeo do fracasso passava inúmeras vezes em minha mente e o protagonista desta história era eu...
Certa vez, porém, alguns amigos meus contaram-me de suas suspeitas em relação a ela. Fugi deles logo... Desabei na primeira rua deserta que encontrei. Ainda assim, o sofrimento continuava. Pensei em matar-me, mas desisti logo. Não era capaz disso. Corri, então. Corri até minhas pernas não poderem mais.
Adiante, vi algumas luzes. Estava, enfim, em uma avenida movimentada. Carros e mais carros, faróis e tudo o que meus olhos queriam ver. O exagero modernista, na terrível obsessão pela velocidade, em mim se manifestava. Queria aqueles carros mais rápidos. Mais rápidos. Minhas pernas desejavam colocar-se ao meio daquela avenida. Mas elas recuavam. Subitamente, decidiram se posicionar lá. Não recusei. A luz chegou mais depressa do que eu queria. E o carro que a integrava também.
Não me recordo se morri muito tempo depois. Sei apenas que senti muita dor durante o impacto. Não mais forte do que a que sentia na hora, mas comparável a dor de vários tiros transpassando um ser humano. A dor mais forte veio logo depois, quando a vi sair do carro... com ele. Tentei estancar a angústia, porém esta não passava. Então parti, com o sofrimento armazenado em meu coração. E triste, com um brilho sofrível nos olhos...

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