O homem e o papel

    Papel sobre a mesa, lápis na mão. Cadê a inspiração que não chega? Expectativas e mais expectativas para a construção de algo surpreendente. Será que era um bom momento para fazer isso? Creio que não. Mas ele acreditava ser necessário.
    Two minutes. Tinha com ele. Queria escrever logo; consumir-se em seus pensamentos, em suas ideias e escrever aquilo que ninguém jamais teria lido algum dia. Achava, no entanto, que não poderia fazer isso, pois seu estado e sua criatividade não condiziam com o propósito. Mas ele queria. Muito.
    O relógio acelerava os movimentos dos ponteiros. Não se via mais as horas passarem no seu tempo. Elas simplesmente corriam, caçoando da cara do pobre amigo.
    Escreveu uma linha. Sim, escreveu. Apagou. Tentou novamente. Era uma luta entre aquele pequeno pedaço de papel e ele. Nenhum dos lados cedia. E a disputa acirrada continuava. O papel desejava que ele parasse com aquela compulsão, e que suas linhas -suaves linhas- fossem limpas e deixadas em paz; em contrapartida, o homem desejava rabiscá-lo com ideias e mais ideias, arranjadas de um modo aprazível e bastante interessante, sendo responsáveis por uma sensação que por muito tempo tencionava obter.
    Era solitário. Triste. Não gostava do mundo, tinha poucos amigos e vivia cheio de problemas. Pensava demais. Esse era o seu problema. Ah, se soubesse que Alberto Caeiro estava certo ao afirmar que "pensar é estar doente dos olhos"... Certamente seria mais feliz hoje. Talvez não, quem sabe? Talvez estivesse ilusoriamente feliz, como eu acredito estar neste momento. As tristezas seriam camufladas, porém não extintas. E é aí que reside todo o mal, uma vez que elas podem querer aparecer a qualquer momento, com uma força ainda maior. Temo isso. Mas não falemos de mim. Voltemos à história, mesmo sendo pouco interessante.
      Toc toc. Batidas à porta quebraram o silêncio do ambiente. Papel e homem se assustaram. Aquele voou para bem longe da mesa; este voou em direção à entrada da casa. A porta foi lentamente aberta. Uma mulher entrou. Creio que fosse sua namorada. Ela sentou. Ele também. Conversaram por algum tempo. Ela se foi. Ele também, logo atrás dela.
      Não sei muito bem o que acontecera com o papel. Acredito que tenha vencido a luta contra o homem. Ganhou a liberdade que tanto queria. Derrotou, finalmente, o infímio escritor. E este, por sua vez, fora vencido também pelos seus sentimentos - pelos seus mais bobos sentimentos. Arrepender-se-ia depois, com certeza. Todavia, isso teria de acontecer. Faz parte da aprendizagem. A vida é tal aprendizagem. O sofrimento faz parte da vida. Nada mais natural do que vários tombos para tirar algum proveito das diferentes situações pelas quais se passa.
     Chegaram a uma ponte, que ligava dois lindos ambientes. Muitas árvores recobriam a área e um rio passava rapidamente abaixo deles, dando ainda mais vida ao lugar. A beleza do local era só uma máscara. Uma máscara que não poderia ser arrancada naquele momento. Se pudesse, tanto sofrimento depois não seria enfrentado. Não entendam, por favor. Eu precisava dizer isso, simplesmente.
     A mulher parou friamente. Ele se aproximou, como se a quisesse mais perto. Ela se afastou. Olhou-o fixamente. Olhos frios agora. Entoou algumas palavras, mas não fizeram muito sentido para ele. Alguns poucos minutos depois elas fariam. Preferia que não fizessem. Entretanto, era necessário que assim acontecesse.
    Acabou. Ela acabou. Ele se acabou. Acabaram-se. Tudo acabado. Sim, isso mesmo. Choraram. Ele muito mais, embora fosse natural que mantivesse a pose de "forte". Terminada a triste seção de réplicas e tréplicas, ambos voltaram para seus lugares. Seguiam rumos opostos pela ponte. Ele olhava para trás, desejando que ela olhasse também. Mas ela não olhava. O dia estava terminando, com o ambiente um pouco mais triste agora...   
      Assim que retornou à sua casa, o homem procurou o papel. Não o achou. Eu estava certo: o papel havia ganho. O homem havia perdido aquela luta para ele. Creio que para si mesmo também. Mas aprenderia com isso. Ou talvez não. Nunca se sabe...
      Deixo às mãos do malvado futuro decidir o que irá acontecer. Na verdade, ele já decidiu o desfecho dessa história. Sim, eu sei como será o término. Você também sabe. Eu sei que sabe. Para que falar, então? Confirmar aquilo que você esperava? Ah... Hoje não. Por enquanto contente-se com isso apenas. A vida  não tem só um final. Ela está sempre em construção. Limitar a vida do pobre homem a um fim triste não é algo muito bonito de se fazer. Vamos deixar que ele viva. Nem que seja do outro lado da existência...

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