A correspondência
Lá estava ela. Correspondência distante, sem remetente, com um grande olhar fixo atrás. O selo -que era de uma pequena japonesinha assustadora - me dava arrepios. Medo. O que haveria naquela carta? Nunca recebia cartas - seria natural se fosse uma carta dizendo que meu nome iria para o SPC ou pra macumba ou pra sei lá onde. Por que aquele envelope branco com listras amarelas e verdes em volta me assustava? Será que era alguém me avisando que alguém que eu não conheço morreu? Seria Chico Xavier me dando uma carta psicografada lá do além? Quantas dúvidas! Qualquer um já teria aberto aquela bendita carta e respondido a essas questões, mas eu, bobo, sentia medo.
Parei. Olhei pra japonesinha do selo. Senti medo. De novo. Ela era assustadora, cara. Deveriam proibir a venda desses selos e... Tá, não queria abrir aquela carta. Tinha medo de me arrepender, de ver que todas as minhas esperanças eram bobas e que eu nunca mudaria. Ao mesmo tempo, uma outra voz teimava dizendo que eu era retardado e qualquer um já teria me espancado por escrever essas coisas. Abriria ou não aquela carta?
Talvez eu devesse fazer as coisas fluírem. Uma onda marota, tipo reggae, "firmeza" e "paz e amor". Mas, como minha mãe nunca havia me ensinado como me desvincular dos meus medos, preferia continuar tendo medo da carta. Para falar a verdade, acho que a carta é quem deveria sentir medo de mim. Sou um assassino de formigas assumido. Se eu fosse ela, teria medo. Minha pia da cozinha já viu muitas mortes acontecerem.
Acho que meu melhor amigo me chamaria de imbecil se lesse isso. Mas, meu, uma carta com uma japonesinha atrás sorrindo é muito assustador! Cara, já pensou em quantas vezes na vida isso pode acontecer? É raro. Raro como o Dragão Branco de olhos azuis.
Olhei novamente para a dita cuja. Por que sentia medo dela? Tá que a japonesinha me assustava, mas será que era só isso? Será que eu não tinha medo de mudar um pouco as coisas que me eram rotineiras e, assim, viver algo que talvez achasse não estar preparado? Será que não teria medo de me arriscar, de ler o que nunca havia lido, de sentir coisas que talvez há muito tempo não tivesse sentido? Viveria eu com o coração pesado até quando? Até quando pensaria na opinião dos outros, nessa voz que não é minha e me faz sentir medo de tudo, até mesmo de uma simples carta?
Não percam o próximo episódio de "Eu tenho medo de cartas" - anunciava o rapaz da TV. Epa, não, não era o rapaz. Era eu dublando o rapaz na minha cabeça enquanto assistia à TV. Mas isso demorou pouco porque logo em seguida eu abri a tal carta. Sem suspense, assim, de supetão. Mas encontrei espaços brancos. Não havia nenhuma palavra, nenhuma frase, nenhuma ideia nas entrelinhas -não haviam nem linhas nem entrelinhas-, apenas um papel em branco. Ô, saco, tanto suspense por causa de uma folha em branco? Que diabos aquilo queria dizer? Seria uma brincadeira boba?
Fiquei pensando, pensando e, enquanto pensava, pensei que tudo o que tinha que pensar já havia pensado. Não havia o que pensar. Talvez fosse essa a mensagem. Eu só devia sentir, e usar isso como uma forma de crescer no meu interior. Às vezes, sofremos por coisas que só estão na nossa cabeça e damos uma vida totalmente ampla pra isso. Quando nos damos conta, nossos medos estão vivendo e a gente só fica assistindo, como se fôssemos espectadores e eles fossem os atores principais. E durante esse tempo, a vida vai passando e levando tudo o que encontra pela frente.
Queria poder dizer que nunca mais senti medo de cartas. Mas recebi a bendita da japonesinha sorrindo no verso de outra correspondência alguns anos depois.

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