Da janela aberta
PARTE I
- Isso não tá certo, Jo!
- Por que não tá certo, Ana? Por um acaso você é dona da razão agora?
- Já contou a papai?
- E o que ele tem a ver com isso?
- Ora, como assim, Jo? Você tá doido? Papai precisa saber que você foi àquele maldito lugar!
- Você não vai contar nada a ele, Ana!
- Vou sim. Ele precisa saber!
- Você não pode contar...
- E o que quer que eu faça, Jo? Você faz as suas bobagens e quer que eu fique quieta?
- E as suas bobagens? Quem é que guarda? Quem é que está sempre te protegendo, Ana? Papai? Não! Sou eu!
- Mas agora é diferente, Jo! Você foi lá! Não podia ter ido.. Papai proibiu você de ir lá!
- E papai manda na minha vida agora? Ele nunca esteve nem aí pra gente, Ana!
- Não fala assim, Jo!
- É a mais pura verdade! Lembra do acidente? Papai estava lá? Não, não estava. Estava bebendo com o Marcos, como sempre!
- Jo...
- Não, Ana. Você não vai contar...
- Mas papai precisa saber.
- Não, ele não precisa. Se soubesse, o mínimo que faria seria me expulsar daqui e isso é o que eu não preciso agora.
- Papai não faria isso.
- Papai é um chato!
- Não fale assim! Papai sempre cuidou da gente!
- Papai agora é exemplo de bondade, Ana? Eu não o perdoo por ter mandado mamãe embora.
- Mas foi a mamãe que quis sair, Jo!
- Porque papai a pressionou a se mandar daqui. Não se lembra do que ele disse a ela?
- Mas papai estava nervoso naquele dia...
- Não o defenda, Ana! Papai não tinha razão alguma.
- Nem mamãe, Jo.
Fazia dois anos que não via mamãe... Desde que saiu para trabalhar em Chicago, nunca mais havia conseguido contato com ela. Papai fizera questão de aumentar ainda mais essa distância, nos mudando para outra casa no interior do estado e não informando a ninguém. Particularmente, eu não gostava da forma autoritária com que ditava o rumo da minha vida e da de Ana. Papai me irritava profundamente, ainda mais por se afundar em seu vício ridículo quase todos os finais de semana ao lado de Marcos. Mas o que não me descia à garganta, de jeito nenhum, era saber que, mesmo cobrando que fôssemos certinhos em tudo, papai não era exemplo algum de bom caráter. Ana fingia não ver nada disso, mas eu deixava claro toda a repugnância que sentia em fazer parte dessa situação boba, que piorava a cada dia...
- Não vai contar a papai?
- Essa é a última vez, Jo. Promete que não vai mais lá?
Ana gostava de me irritar com esse papo de "promete que...", já que eu não era de prometer nada sabendo que, lá no fundo, não poderia cumprir - pelo menos com ela. Sempre éramos muito sinceros um com outro e agora não seria diferente. Ana era contundente em suas palavras e mentir para ela já não estava mais sob cogitação.
- Prometo não ir mais lá.
- Ah, que ótimo!
- Mas com uma condição...
- Qual?
- Se prometer que nunca mais se encontrará com Marcos...
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