Canetinhas
Não queria voltar aqui para ressuscitar o meu diário assombrado. Mas, por querer aliviar essas palavras mortas que não me saem, recorro a você, querido espaço branco. Desde ontem gostaria de transpor algumas ideiazinhas que me invadiram a mente, mas, por ironia do destino ou não, fui atacado por elas a ponto de não senti-las como parte de mim, e sim de me sentir à parte delas.
Talvez tudo isso fosse até mais um daqueles desabafos bestas que comumente escrevo por aí, mas, sei lá, deu vontade de escrever e dane-se o resto. Não queria me importar em fazer disso o que quer que fosse, seja para desabafar, escrever textos bonitinhos ou agradar o leitor compulsivo que existe em mim, não dando a mínima sobre ser o certinho que muitos buscam. Criei esse espaço justamente para isso: para me divertir com as palavras e me refugiar nelas, seja lá qual fosse a opinião de quem as lê.
Gostaria MUITO de poder transpor tudo o que me vem à mente de forma instantânea no papel, mas não consigo. Quando penso em escrever, já não é a mesma coisa. Às vezes, surgem aquelas ideias malucas que fazem de tudo pra sair da gente, mas, quando a gente tenta transformá-las em algo concreto, a essência que havia nelas some, e o que nos era inerente parece vazio. Em suma, queria deixar claro que o mesmo motivo que me trouxe aqui já não é o mesmo que me deixará ir. Eu mudo, tudo muda. Mas não, isso não é ruim. Há sempre um lado bom...
Há sempre um lado bom. Tá, quase sempre. Ou na maioria das coisas, pelo menos. Queria que o mundo pudesse ver um pouquinho do que eu vejo de vez em quando. Não, não sou perfeito e nem um daqueles filósofos que dizem ter a resposta pra tudo. Mas em raros momentos tenho ideiazinhas que talvez fossem legais para o restante do povo. Infelizmente, muitas dessas ideiazinhas são vistas como utopia ou bobeira, já que o próprio mundo as rotula como tal e isso já faz parte da cabeça da maioria das pessoas. Mas não, eu não deixo de acreditar nessas tais ideias.
Não sei como colocar direitinho as palavras no papel, mas queria desabafar um pouquinho com você, espaço branco. Ainda não entendo por que estou aqui nesse mundo, mas sei que não é pra fazer parte dessa massa que só pensa em dinheiro pra ter felicidade. "Você também pensa". Sim, eu penso mesmo, não vou negar. Ainda não sou um espírito evoluído pra falar que vivo da natureza. Não como mato e nem tomo banho de rio, mas acredito que existe muita coisa bonita além de toda essa corrida desenfreada pelas verdinhas de papel. Não trabalho, não tenho dinheiro. Sinto falta de vez em quando, já que a gente precisa disso, INFELIZMENTE, pra sobreviver ou alimentar algumas de nossas vontades. Mas, quer saber de uma coisa? To feliz, apesar de tudo, por ainda estar longe desse mundo. Me sinto mais livre... Não sou obrigado a viver pro trabalho e nem a me sentir escravo do sistema. "Faço parte, mas não sou parte". Também não estudo, conforme os padrões da sociedade. E quer saber de outra coisa? Também to feliz por estar longe desse outro mundo. É sufocante saber que estudar hoje em dia é o mesmo que formar robôs.
Aí a pergunta: e tu não faz parte também desse mundo por querer estudar, trabalhar, cara pálida? Minha resposta: Foda-se o que você pensa. De uns meses pra cá a única coisa que me importa é viver um dia de cada vez, de forma leve e natural. Não sou exemplo de felicidade nem o Dexter do pensamento contemporâneo, e nem aquele que está longe de toda e qualquer alienação, mas "tento não tentando" fazer com que a minha estadia aqui valha a pena.
Um papo reto para os padrões da sociedade: Primeiramente, ceis são uma droga. Não me venha falar que roupa eu tenho que usar, que palavras eu tenho que falar e como eu tenho que me comportar pra ser aceito e feliz porque, na boa, tudo isso não passa de um besteirol sem tamanho. Contanto que haja respeito entre todo mundo, o resto é o resto. Segundo: por que cargas d'água tu tem que controlar a minha vida, o que eu faço ou deixo de fazer? Na boa, tu tá é precisando lavar um tapete, estender uma roupa e cuidar das tuas próprias nádegas porque eu não tenho nada a ver com essa história. Cada um é LIVRE pra fazer o que quiser, desde que respeite o outro na sua individualidade, não importa a cor, raça, status ou qualquer outro rótulo inventado. Terceiro: um grande foda-se à sua opinião babaca que me faz mal e me torna mais um robozinho alienado.
Estou tentando viver em meio a essas pedrinhas que surgem no caminho. Não sou perfeito, como já disse, mas não concordo com um monte de coisa. Sei que é uma baita hipocrisia falar que trabalho, estudo e [cri, cri , cri, parece que não há outras opções no momento, tente novamente mais tarde] são horríveis e por isso eu deveria ficar longe, embora eu saiba que isso não é possível. Se houvesse outras alternativas para doidos como eu, talvez até não fosse - e até não pensasse assim-, mas, como o capitalismo é dominante por aqui, não há outra saída. Por outro lado, mesmo assim, acho que dá, sim, pra [con]viver com essas coisinhas, mesmo pensando doidamente. Em certos casos, no entanto, é praticamente impossível não se sentir mal (não trabalharia numa Bolsa de Valores, por exemplo).
Se algum leitor doido por aí compartilhar das mesmas ideias, não se desespere. Há sempre um jeito, embora não consigamos enxergar, de fazer as coisas melhores pra gente mesmo. Não, não pensa no mundo. Deixa isso pra depois, quando a gama de opções for maior. Pensa em você, na gente, em como as coisas podem ser legais dentro do que é possível. Quer usar gravata por cima da blusa? Usa, dane-se os outros. Eu uso também, se quiser companhia. Confesso que este é um grande desafio pra mim, já que eu sou um menino comum desse país, ainda com padrõezinhos chatos que tão tentando sair aos pouquinhos. Vou tentando não me desanimar, e "fazer batatinha" com o que é possível.
São tempos difíceis, mas caminhe. Chore, ria, cante, dance, pule. Tema. Tema? Não, não tema. Tenha tema, tema pra rir, tema pra cantar, tema pra não ter tema e, então, temer. Sorria quando der vontade, aquiete-se quando não couber o sentimento aqui fora. Faça o que der vontade e, se for certo pra você, arrisque-se também. Que mané medo o quê! A gente não é dono do futuro e nem da nossa vida. A gente só pode viver. E viver vai bem além dessa palavrinha de cinco letras. Só o coração doido pode dizer, mas fazer os braços e as pernas é quem farão - ou o que der pra fazer. Não, não é parágrafo de autoajuda. São palavras, apenas, que só terão sentido quando forem lidas pelo o que há de profundo na alma de alguém.
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