Sou apenas uma lâmpada


    Agora eu sou uma lâmpada, daquelas que sentem falta de um brilho próprio que afaste as sombras que as cercam. Sou daquelas que se apagam quando sentem medo, que fingem a mudança que não ocorrera para não queimar mais. Sou fluorescente, incandescente, LED. Sou branca, amarela, azul, verde, vermelha. Sou preta, como o abismo que existe dentro de mim.
   Sou a mudança, sou a estabilidade. Sou o futuro, sou o passado. Sou o que sei que não sou e que talvez nunca venha ser, mas tenho em mim a esperança de dias melhores. Sou rios, cachoeiras; sou árvores, bichos, objetos. Mas sou apenas uma lâmpada.
   Tenho medo da mudança porque ela me é desconhecida. Não gostaria de mudar quem sou para ter alguma coisa. Não me conformo quando me dizem para "amar a vida" ou "que as coisas são assim mesmo, você tem que continuar levando". Não faz sentido manter em mim essa luz que não brilha apenas para "tentar fazer parte do que não faz parte".  Quero ir além do que essas limitações sociais me expõem. Não sou a parte máxima que já existiu, nem mais inteligente, mas sou uma transformação que não quer sorrir o tempo todo como se isso fosse sua real face. Não gosto da sociedade, mas também não quero ser odiado. Só quero ser quem sou, vivendo num mundo em que gostaria de viver. 
  Não me desmotive a viver. Não me faça ciúmes, não me faça competir. Não, eu não quero felicidade. Só quero me manter bem, na medida do (im)possível. Só quero uma gotinha de esperança para ficar aqui. Quero mudar sem mudar; quero paz. 
    Não sou brilho, não sou escuridão. Não sou sol, não sou chuva, nem abismos no meio do espaço. Sou o que sou, ou o que um dia venha a ser. Sou isso, sou aquilo, mas nunca a mesma coisa. Sou e não sou, ou estou. Sou gente, sou bicho. Mas, mesmo assim, sou apenas uma lâmpada.

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