Devagar, seu motorista!




     Olá, seu motorista... Será que o senhor poderia ir um pouco mais devagar? É que eu não consigo me acostumar com esse ritmo frenético das grandes metrópoles. Ah, não pode? Está certo então. Mas no próximo ponto eu desço, ok?
     É estranho conviver com toda essa velocidade da vida moderna. As pessoas correm, correm, correm, correm mais um pouco e, depois de correr, correm um pouco mais. Correm para aproveitar a vida, correm para não se atrasar no trabalho, correm para ter tudo antes que não tenham, correm para ganhar dinheiro, correm para se aposentar, correm para não morrer. Mas é nessa corrida toda que a vida para. Parece-me que o senhor não está muito feliz, não é mesmo, motorista? 
     Existem tantas coisas boas na teoria que acabam por se estragar na prática. O capitalismo até teria um sentido se o mundo não fosse tão egoísta. E esse ritmo frenético de crescimento e construção para as gerações futuras - que talvez nunca cheguem - parece não atingir a perfeição. Por quê? Será que estamos no caminho certo? Será que esse ponto de interrogação que martela o tempo toda na cabeça não pode ser respondido? Opa, calma aí motorista, não passe o sinal vermelho...
     Gostaria muito que as coisas fossem mais fáceis. Gostaria que um estudante como eu não precisasse se jogar do décimo primeiro andar por não superar as expectativas que a vida lhe impõe. Seria tão simples se tomassem gosto pelo que fazem e se isso tudo se tornasse natural... A escola, a sociedade, o governo surgem como forças opressoras obrigando o tal estudante a estudar. Mas não para ser "alguma coisa na vida", e sim para simplesmente ser mais um nas pesquisas do IBGE ou de qualquer outro órgão que nos robofica a cada instante...
    Fato é que construímos um futuro que não conhecemos. Pontes, escolas, hospitais, entre outros são pontos que nos firmam dentro do contexto e nos fazem querer ser e ter alguma coisa que, muitas vezes, não queremos. Mas, espera aí... Será que tudo o que temos e estamos construindo está mudando alguma coisa dentro da gente? Ou simplesmente estamos embarcando numa generalização concretizada há muitos e muitos anos? Precisamos de muitas coisas, é óbvio. Mas contesto a forma como essas coisas se mostram. São tantas e tantas desigualdades, pressões e comportamentos fúteis que tornam a vida um mero objeto sem valor, o qual todos nós DEVEMOS seguir.
     Mais devagar, motorista! Até parece que o senhor DEVE ser Deus... Meu ponto é o próximo, já falei, não tenho pressa para chegar. Os outros que te xingam estão afoitos, já que fazem parte desse sistema como todo mundo; mas não ligue, eles não têm culpa. Ninguém tem culpa, embora  todos sejam culpados. Espere! Desço aqui. Opa, motorista, cuidado, quase bateu no ônibus da frente! Obrigado pela viagem, meu senhor! Tenha um bom trabalho!
      "O relógio te chama nas batidas do teu coração. Mas a vida para quando ele para, não adianta atrasá-lo. Segue em frente que atrás vem gente pra te empurrar se demorar. Vamos, mais rápido, mais rápido, mais rápido até bater e morrer e a vida parar..."

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