No céu de diamantes
Lá estava ela, sentada no mesmo banco de sempre. Ao seu lado, uma embalagem de cigarro, a qual carregava para todos os cantos. Retirou o último palitinho branco da caixa e o dirigiu aos grandes e delicados lábios. Exalava fumaça da mesma forma que gente grande, como se uma dor exacerbada invadisse seu peito jovem e dilacerado logo cedo pelo vício. Olhava para os lados, tentando escapar das observações dos demais clientes daquele bar. Mas, por carregar a beleza de uma menina no início de sua adolescência, não conseguia desviar os olhares dos rapazes que frequentavam aquele ambiente.
Dentro de seu corpo de garota, carregava uma alma de mulher. Sempre muito forte, escondia no olhar a tristeza que sentia por ter sido abandonada pela mãe quando criança e ter se virado sozinha durante todos aqueles anos. Era forte, tal como um touro. Ou melhor, como um diamante, objeto que ela mais idolatrava neste mundo. Seu fanatismo era tanto que, ao invés de receber em dinheiro quando realizava algum trabalho, preferia sempre ter como moeda a pedra preciosa em questão.
Naquele mesmo bar, circulavam as mais diversas espécies: homens enganados por suas mulheres, depressivos, homens de negócios à procura de algum divertimento, donos de bares concorrentes, matadores de aluguel, caipiras, mendigos, entre milhares de outros. Dentre estes, os gordinhos de terno eram os únicos que chamavam a atenção da jovem. Ninguém jamais soube o motivo de tal preferência. Talvez por ter se envolvido, na infância, com um tal de Joaquim, um garoto gordinho e filho de um rico empresário. Por ser criança, o menino nunca entendeu o que realmente seria ter um relacionamento, ainda mais com uma menina envolvida tão precocemente com os assuntos amorosos. Assim, cada um acabou seguindo para um lado, o que magoou o pequeno coração da menina, que aprendera logo cedo os profundos sentimentos que dirigem a vida adulta.
Durante aquela noite, enquanto estava sentada em frente ao balcão do bar, viu aproximar-se um certo rapaz. Com um terno na mão e de linhas do corpo exageradas, o mesmo dirigiu-se ao local onde eram vendidas as bebidas.
- Black Label, por favor.
- Dois, por minha conta! - disse a garota.
- Por minha conta, você quis dizer, não é? Esta noite eu pago!
- Já que insiste...
Copos ao balcão. A moça foi a primeira a pegar a bebida, dirigindo o recipiente rapidamente à boca, sem desviar um minuto sequer seus olhos daquele rapaz. Este, por sua vez, envolvia-se cada vez mais pela garota, sobretudo por suas grossas pernas aparentes e por seus seios fartos pouco recobertos pela pequena blusa. Aquela briga de olhares insistia sem que nenhuma das partes se rendesse, embora a garota estivesse impaciente com a falta de atitude do rapaz. A jovem, então, aproximou-se do mesmo e, colocando seus finos braços no terno escuro do homem, induziu-o a chegar mais perto dela. O espetáculo estava quase concluído. Só faltava o golpe final. Um preço. "Um colar de diamantes, nada mais..."
Dirigiram-se para a casa do rapaz. Um apartamento não muito grande, mas suficiente para a solidão em que ele vivia. Lustres bem reluzentes, de um requinte bem sofisticado. As portas com detalhes moldados a mão e a televisão de plasma eram as peças que mais chamavam a atenção no local. A cama, apesar de muito confortável, não era a mais bonita que ela já havia visto.
Com lindos olhos claros e delicados de criança, a garota envolvia o rapaz através de sua atitude diabólica e atirada de mulher. Sorridente, entregou ao gordinho um copo de bebida que havia pego na cozinha, dançando no ritmo da música que no ambiente tocava. Delicadamente, colocava uma de suas pernas na perna do homem, fazendo movimentos que acompanhavam o som. Com seus braços, apertava-o bem forte, quase o sufocando. O rapaz, assim, via-se praticamente imóvel com as ações tão expressivas da menina. E esta, por sua vez, continuava com os mesmos movimentos e com a atitude libidinosa, não aparentando seus quase quinze anos de idade...
Luzes apagadas. Finalmente o espetáculo chegava ao ápice. A música acelerava mais e mais ao passo que a garota concluía o show que ela ali armava. O ambiente tornava-se muito quente e o rapaz já não mais se movia. A menina começava, então, a beijar freneticamente todo o seu corpo, acompanhando o intenso movimento da música. Logo depois, porém, ela afastou-se. O gordinho, num movimento instintivo, aproximou-se da moça, sendo surpreendido por uma leve facada no peito. A música, com seus tons graves, dava ao ambiente um ar fúnebre, sendo acompanhada pelas facadas que a garota investia no rapaz, sonolento pela droga ingerida junto com a bebida.
A música chegava ao fim. O espetáculo estava quase acabando. Nos toques de violão que terminavam o concerto grandioso, viu-se um pequeno beijo seguido de lágrimas e sorrisos psicóticos. E do bolso do terno escuro do gordinho um colar de diamantes sendo retirado pela mão de uma criança que nunca pôde brincar, devido às diversas e tristes surpresas geradas pela vida...
***
Naquele bar, risos e choros podiam ser ouvidos. Copos eram entregues sobre um pequeno balcão, frequentado pelas mais diferentes espécies. No meio de tantas pessoas daquele pequeno botequim, uma pequena figura surgia. Um rapaz, de terno na mão e de corpo ligeiramente expansivo...
- Jack Daniel's, por favor.
Sob os olhares dos demais, o rapaz manteve-se firme na sua posição. Com as mãos no balcão e os olhares fixos nas bebidas do armário, parecia querer aliviar a tensão que havia adquirido no trabalho ao longo do dia. No entanto, daquele local, ouviu ecoar uma voz delicada, não muito distante, que lembrava a de uma criança, embora fosse firme e convicta:
- Dois, por minha conta...

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