O cientista
(Texto fictício)
Caminho solitário por essas avenidas todos os dias. Olho para as pessoas, para os movimentos apressados dos pequenos trabalhadores , para o rosto estressado e às vezes triste de uma mãe que precisa a cada momento se ocupar de algo a fim de garantir a subsistência de seus filhos, e me pergunto : "Por que tudo isso?". Talvez seja irracional da minha parte, mas não me faz o menor sentido toda essa correria vivida pelo mundo. O que estamos construindo, a final de contas? Nos matamos , nos sacrificamos, talvez por nossos descendentes e eles, por força do destino , farão o mesmo. E quando essa cadeia complexa acabar? O que restará? Vestígios apenas do sacrifício, do suor gasto em 12 horas de trabalho por dia ou meras ilusões de grandes obras que, no fundo no fundo, de nada adiantarão? Espero não estar ultrapassando meus limites de raciocínio e não me iludir nesse conceito, pois sofrerei muito no futuro. Futuro. Outra palavrinha polêmica no meu vocabulário...
Sabe, estou prestes a descobrir uma incrível vacina que ajudará e muito a humanidade. Temo estar sendo ridículo com isso; temo alcançar minha própria destruição e a de inúmeras pessoas inocentes com essa descoberta"benéfica". O mundo se entorta cada vez mais com seu orgulho e (ir)racionalidade. Não sei o que poderá acontecer no "futuro". Não sei se estou fazendo algo certo por mim, por nós. Será que vale a pena morrer por isso, por essa descoberta? Uma vida em função desse objetivo é realmente necessária?
Queria estar certo quanto aos meus desejos e expectativas. Mas sei que dificilmente tal convicção se concretizará na minha pobre vida. Agora entendo todos os pensamentos adolescentes, revoltas, sofrimentos por coisas fúteis. Hoje percebo que não sei nada, para falar a verdade. A vida é confusa, eu sou confuso e todas as cadeias de elementos que envolvem o Universo também são, com certeza. Respostas... Ai.. Se as estivesse ignorado e me comportado como um velho e bobo ser humano alienado, hoje seria menos triste. Teria amigos , riria mais, sairia mais. Ou talvez não, talvez me estressasse, cultivasse uma cultura infértil na mente de meus filhos, morreria à mingua por não ter feito nada absolutamente marcante para a minha visão de mundo.
Egoísmo. Acho que é isso que define tudo . O mundo perfeito, as coisas ao modo como queremos, a vida tal e qual do jeitinho que sempre quisemos que fosse. Bom, mas quem disse que isso é algo totalmente ruim? É claro que sob certas perspectivas vemos como algo mais abominável possível. Mas, tentando enxergar por um outro lado, por uma fresta escura, por um pequeno buraco em um papel rasgado , talvez chegássemos a um consenso sobre o que seria bom para nós. Talvez os vários egoísmos existentes, as várias formas de pensar, se combinassem e se tornassem algo universal ou simplesmente HUMANO.
Em meio à essa complexidade que é a vida , eu particularmente deixo de viver e vivo para aquilo que acredito. Aquilo que acredito? E o que seria? Sinceramente, não sei. Talvez me arrependa depois por ter pensado (ou deixado de pensar), mas não posso fazer nada. Não posso morrer agora, não sei o que me espera lá do "outro lado". Temo, do mesmo modo que temo a vida , esse outro pedaço dela. Temo a tudo, a todos e a mim mesmo. Ó, vida, mundo, quando tudo isso acabará? Quando todo esse medo, essa insegurança terá fim?
Preciso parar de pensar, ou raciocinar ainda mais... A realidade me consome e, como todo ser humano comum deste pequeno planeta, eu também faço parte dela, infelizmente. Pelo visto, retornarei agora aos meus intrincados experimentos. Triste, mais uma vez.

Comentários
Postar um comentário