Coral dos cegos bailarinos
Lá passavam eles. Sorridentes, traziam consigo a esperança de uma vida melhor. Uma multidão logo à frente. Sussurros. Silêncios. O espetáculo começava. Movimentos por todo o palco embelezavam o espaço, trazendo algumas cores ao ambiente. Vozes confusas se espalhavam enquanto o pedaço de seda que cobria a cortina se fechava. Iniciava, enfim, o grande festival de música daquela cidade.
No fundo, no entanto, surgia uma figura estranha. Aquele pequeno cego, de olhos bem abertos, dançava e cantava como se o palco fosse seu, fazendo da arte a sua própria arte. Mas, sem entender nada, a plateia se recusava a aceitar o diferente, já que habituara-se desde os primórdios com o padrão do suposto certo pré-estabelecido. Aquele jovem cego era vulgar. Era triste. Era diferente. Mas quem o conseguiria entender estando tão impregnado com aqueles padrões? Quem veria nele a esperança de algo melhor se nem ele mesmo entendia por que tudo aquilo se encaminhava sempre para o mesmo lugar? Havia, querendo ou não, algo que o tornava especial: ele não aceitava as limitações que lhe impunham, mesmo sofrendo com todas as especulações que o mundo lhe proporcionava.
Parou. Sentou ao chão e começou a cantar. Agora fechava os olhos e encarava o seu mundo de cores. Via o que nunca pudera ver; sentia o que nunca pudera sentir; falou em música o que nunca lhe permitiram falar; fez o que deveria fazer: tornou-se ele mesmo. Em um gesto, calou aquela multidão. Todos se revoltaram. Ninguém o compreendia, já que era diferente. Vaias começaram a reinar no ambiente, entristecendo-o. Não entendia e fechava os olhos, novamente, torcendo para que o mundo não parasse no tempo. Mas era em vão: as vaias continuavam.
Seguranças daquele espetáculo subiram ao palco. Pegaram-lhe nas mãos, tentando retirá-lo de lá. Insistente, grudava-se no chão em oposição ao que lhe impunham. Revoltava-se com gestos, expondo o que ninguém era capaz de expressar. Via em si um instrumento de transformação, embora soubesse, lá no fundo, que sozinho nunca transformaria nada. Parou. Gritou. Sentou ao chão novamente e começou a cantar. Em meio a falsetes e tons graves a plateia se atordoava... "Façam alguma coisa, tirem ele de lá! Está estragando o espetáculo!". Pobres coitados! Mal sabiam que aquele pobre rapaz era o próprio espetáculo, a própria arte em ação. Eram mais cegos que ele, embora fingissem enxergar tudo.
Depois de muita luta, os seguranças conseguiram dominá-lo. O rapaz tentava, de todas as formas, fugir daquele grande cárcere social. Mas os braços da injustiça eram fortes e a voz dele era pequena. Entretanto, num instante confuso, um coral ao fundo se formou. Jovens dançarinos que antes haviam se apresentado naquele mesmo palco paravam o espetáculo com suas vozes um tanto quanto desafinadas. Formavam uma grande fila com as mãos nos olhos, sentados um a um no meio daquele lugar. O público parava sem entender absolutamente nada. Diante daquele grande tumulto, os seguranças soltavam o jovem cego. E o festival, finalmente, voltava a reinar.
Não aguentando a pressão, as pessoas se retiraram. Fugiram, como sempre faziam quando não aceitavam o que lhes era diferente. Tornavam-se cegas ao sair daquele ambiente, juntando-se ao mesmo coral que lhes formou quando nasceram: o coral social. Lá, enfim, elas poderiam ter as mesmas regras que lhe afirmavam como pessoas normais. Lá seriam médicos, engenheiros, advogados, arquitetos e passariam com o vento, fingindo sempre a mesma felicidade que nunca existiu. Lá seriam cegas para si mesmas, encaixadas em um coral de bailarinos incapazes de enxergar o verdadeiro sentido real daquilo que chamam de vida.
Fecho os olhos para o final desta história, pois sei que mais tarde aquele pobre cego ainda será reconhecido... Cem anos após a sua morte, é claro.
Fecho os olhos para o final desta história, pois sei que mais tarde aquele pobre cego ainda será reconhecido... Cem anos após a sua morte, é claro.
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