O vendedor de espaços brancos



    Um vendedor de espaços brancos instigou-me a fazer aquilo que ele fazia, certa vez. Aceitei o desafio, pensando que o mesmo seria um dos mais fáceis. Para quem já viu a morte de perto ao capotar de um carro, aquilo seria "moleza".
    Vesti o avental e saí com o meu carrinho estilo 1990 pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro. A cada pessoa, um gesto diferente.
   "Não tio, to a fim de solidão não. Vê se a Maria quer um pouquinho lá, vai"
   "Osh, vai perturbar a mãe, cara chato!"
   "Solidão? Sei o que é isso não. É de comer?"
   Todos recusavam meu produto. O que de mal havia nele? Será que todos já o possuíam? Resolvi tentar responder a essa pergunta e fui procurar dentro de minha casa algo que se aproximasse daquela mercadoria tão simples. Revirei armários, abri gavetas, mexi em baús antigos, "naveguei em mares dantes nunca navegados" e, mesmo assim, não encontrei nada que se aproximasse daquilo que vendia. Desisti da busca.
   Outro dia, em encontro com o tal do vendedor que me fizera a aposta, perguntei a ele porque ninguém queria comprar aquele produto. O vendedor, com um sorriso expressivo e tímido, disse:
   - Amigo, as pessoas já possuem esse produto, mas elas mesmas não sabem. Na medida em que você diz na cara dura aquilo que vende, elas não comprarão, pois ninguém gosta de solidão. Já viu alguém gostar de se sentir vazio, sozinho?
    Eu, refletindo, tentei retrucar o tal vendedor:
   - Mas procurei em toda a minha casa algo parecido com isso e não encontrei. Eu não tenho, como pode afirmar que todo mundo possui tal produto?
    Ele respondeu:
    - Isso é fácil: procure dentro de VOCÊ mesmo. Não há solidão em armários, gavetas ou baús. A solidão existe quando você reconhece viver em um mundo completamente sem-nexo, cercado de concepções estranhas que não te dizem absolutamente nada, meu amigo. A solidão existe quando você mergulha dentro de você mesmo. Em outras palavras, a solidão existe quando você para para pensar em um algo que não existe dentro de você, mas que até então existia antes de você pensar. Ninguém gosta disso.
    Retruquei:
   - Se ninguém gosta, como você faz para vender?
    O vendedor, mais uma vez, sorriu, e disse-me:
   - Eu não saio atrás das pessoas. Paro aqui e deixo que elas me procurem. Na verdade, nunca vendi solidão. Sempre vendi companhia. A solidão, na realidade, nunca saiu desse carrinho. Sempre foi um motivo para que pessoas viessem à minha procura tentar entender o que ofereço. Sobrevivo de gentilezas, não de vendas. Sobrevivo dos outros, das solidões dos outros, as quais acabam por completar a minha própria solidão...
    Diante disso, entreguei-lhe o avental e assumi a perda da aposta. Naquele momento, entendi que o mundo era uma pequena porção de incompreensão para a qual não existia uma fórmula que o decifrasse. E percebi que em mim havia uma parcela de solidão, assim como em todos os seres humanos. Mas isso não me importava. O que eu faria com aquilo, dali em diante, era o que deveria ser pensado e repensado durante a jornada da minha existência...

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